Rebelde por natureza
Ela é a precursora das bad girls do momento – e deixa todas no chinelo. Viúva de Kurt Cobain, atriz, mãe, roqueira, Courtney Love ressurge das cinzas magra, estilosa e sem silicone, para lançar um novo álbum depois de cinco anos de silêncio.
Courtney Love fala sobre:
1.Trajetória
2.Mudanças de impacto
3.Vida atual
4.Drogas
5.Dietas
6.Moda
7.Homens
8.Família
1.Trajetória
Courtney Love é a loura mais polêmica do mundo. Durante 17 anos foi um prato cheio para a mídia, cambaleando da beira do abismo para o sucesso e retornando em seguida à destruição e à loucura. Hoje, a grande dama do rock diz que está limpa e sóbria.
Ressurgiu das cinzas. Ignorada por Hollywood por causa de suas transgressões, viveu uma montanha-russa de dramas e quase se destruiu pelo caminho. Drogas, cadeia, batalha pela custódia da filha, reabilitação, humilhação pública e fofocas na imprensa não acabaram com ela. Aos 44 anos, Courtney não está perdida. Já foi gorda, drogada e sem grana. Agora está refeita. E quer ser levada a sério.
Para ela, não existe assunto proibido. A cantora viveu uma triste espiral de perdas. Seus pais foram ausentes a maior parte do tempo. Durante a infância viveu em comunidades hippies, depois vagou com a mãe de país em país, estudando em escolas na
Europa e na Nova Zelândia. Quando conheceu Kurt Cobain, líder do Nirvana, em 1990, ambos tinham carreiras promissoras e uma relação perigosa com drogas. Casaram-se em 1992. Courtney era querida pela crítica, e sua banda, a Hole, estava quase estourando. O Nirvana, tinha acabado de lançar Nevermind, e batia Michael Jackson nas paradas de sucesso. Dois anos depois, Kurt se suicidou, deixando Courtney sozinha, viciada em drogas e com uma filha pequena (na época, Frances tinha apenas 1 ano e oito meses).
Courtney perdeu quase tudo que amou na vida. Mesmo assim, depois de quatro décadas, ainda tem muito para dar. As revistas de fofoca criticaram seu novo visual, mas a verdade é que ela está inteirona. Com quase um
metro e oitenta de altura, magra sem ser esquelética, pele branca e perfeita, parece nunca ter protagonizado qualquer desatino. “Agora sou viciada em roupas”, conta, para justificar o novo look: legging preto Ann Demeulemeester, blusa Givenchy, colar Lanvin e um casaco ainda com a etiqueta de preço pendurada. Emagreceu por vaidade. “Daquele tamanho eu nunca entraria na lista das mais bem vestidas”, ironiza.
Mas secou também porque precisa retomar a carreira. Às vezes é difícil lembrar que um dia teve uma. “Se eu não tivesse transformado aquele veneno em arte teria morrido. Quando não estou fazendo música sou uma pessoa tóxica para se ter por
perto”, diz, lembrando o episódio em que foi expulsa do hotel Claridge, em Londres, depois de provocar um incêndio com um cigarro no quarto em que estava hospedada, em 2007. “Aparentemente eu queimei um edredon. Mas que droga, eu não estava reclamando, não estava xingando, dou gorjeta feito uma filha da mãe. Isso não é bom comportamento?”, protesta.
Quando Courtney entrou em cena, no começo da década de 90, chamava a atenção por sua beleza nada convencional, o batom vermelho e o vestido baby-doll. Mas a nova Courtney está muito longe do seu tempo de rainha do grunge. “Não posso mais usar batom vermelho por causa do que fiz com meus lábios. Tive que tirar todo o silicone, até os dos seios.” Recentemente, foi fotografada por Karl Lagerfeld, participou de campanhas da Versace e tem o número do Marc Jacob no celular. A partir de agora é uma fashion fabulous e ponto. Sua melhor amiga no momento é Gwyneth Paltrow. “Ela me telefona três ou quatro vezes por semana. É como se pressentisse quando preciso de socorro.”
Algumas de suas histórias são de partir o coração e ela é a protagonista da maioria. “Estamos começando um filme sobre a vida de Kurt. Eu sou a produtora executiva. Tivemos uma reunião no mês passado, em Hollywood. Fui com um vestido Lanvin e um par de Louboutins de saltos altíssimos. Mas em quinze segundos estava chorando feito uma cachorra. Scarlett Johansson vai fazer o meu papel.” Ela respira fundo. “Nunca sofri direito a morte de Kurt. Não vivi o luto. Ele morreu e eu saí em turnê.” Lágrimas escorrem pelo seu rosto. “As pessoas acham que vai ficando mais fácil”, diz , limpando a maquiagem borrada com
as mãos. “Não é verdade. Só fica mais longe.”
No Billboard Music Awards, em 1998 e na
festa pré Golden Globe, em 2006.
Fotos: Frank Micelotta/Getty Images e David Livingston
3.Vida Atual
Enquanto conversamos, Courtney toma água mineral e um
capuccino. E só. É uma companhia agradável, me apresenta a todos que entram
para falar com ela – a designer Heidi Slimane, a estilista Rachel Zoe, os fotógrafos
Mert & Marcus, que suplicaram para clicar a capa do seu novo álbum. Nossa
conversa continua no dia seguinte. Ela conta que não dormiu naquela noite.
Dirigiu até Malibu e voltou, viu TV, leu um pouco e escreveu no seu diário.
Apesar de ter ficado acordada e de não ter tomado remédios, está com uma cara
ótima. Chega sem maquiagem, vestindo Rick Owens da cabeça aos pés, e esvazia
sua megabolsa Jimmy Choo no chão: um Ipod preto com Nirvana, PJ Harvey,
Britpop, um exemplar da Country Life e da revista Heat (com uma foto dela na
lista das mais mal vestidas, usando um modelo Rick Owens), um livro de poesias
de Emily Dickinson, um caderno abarrotado de papéis, as especificações de uma
casa de 3 milhões de libras, na costa inglesa, que ela quer comprar, e muitos
CDs demo do seu novo álbum, o primeiro em cinco anos.
“Este CD é provavelmente a coisa mais importante que farei”, diz ela. Seu
primeiro disco com a banda Hole foi lançando em 1991, um ano depois de conhecer
Kurt Cobain. O segundo, ironicamente batizado de Live Through This, saiu quatro
dias depois do suicídio dele. Celebrity Skin, de 1998, fez sucesso com a crítica,
e o álbum solo, America’s Sweetheart, de 2004, foi gravado no auge da sua
loucura.
Dessa vez ela espera que as coisas sejam diferentes.
Nobody’s daugther, título que dispensa explicações, já está pronto para
sair. Ela coloca uma seleção de demos para tocar enquanto é fotografada.
Canta junto, como se estivesse no palco, e xinga quando erra alguma letra.
Gravar um CD depois de uma longa ausência é um marco para ela. Por isso está
disposta a falar. “Eu costumava mentir para a imprensa. Minha vida era tão
louca que ninguém acreditaria mesmo. Então, qual o problema? Mas eu não minto
mais. Pode me perguntar qualquer coisa.” Então, perguntamos:
Você ainda vai ser uma roqueira quando tiver 50 anos?
Quando terminar esse disco, posso estar acabada. As mulheres passam pela
menopausa nessa idade. Acho difícil ser uma estrela de rock depois desse ponto.
Mas como era quase impossível eu ainda estar viva depois de tudo que já
passei, quem sabe o que o futuro me reserva?
Performance da roqueira em sua festa de
aniversário, em julho de 2007.
Foto: Jô Hale/ Getty Images
4.Drogas
Courtney Love prestando contas no tribunal em 2004; no
Music Mudtown em 2004 e momentos depois de receber a sentença de 18 anos de
rehab.
Fotos: Pool/ Getty Images e Frazer Harrison/Getty Images
Quando você resolveu virar o jogo?
Para ser bem honesta, foi na cadeia (Courtney foi acusada de posse ilegal de remédios
para dor, em 2003, e de agressão, em 2004. Pegou três anos em liberdade
condicional, mas teve uma recaída com drogas e foi condenada a seis meses de
prisão. Cumpriu na reabilitação e perdeu a custódia da filha Frances Bean
para a sogra por 15 meses). Tive uma longa e sofrida queda. Preparei o palco
para a Britney (Spears) se jogar. Passei por tudo primeiro.
O que você fez para mudar?
Uma pessoa que faz milagres me livrou do crack. Levou algum tempo. Fui muito
fundo nas drogas. Não sei por que...
E como faz para se manter limpa?
Sou budista, entoo cânticos. Se não fizer isso, fico negativa, emburrada,
fria.
E a bebida?
Estou sóbria. Nunca fui uma alcoólatra, mas não bebo mais. Claro que não sou
uma AA hardcore. Nos últimos cinco anos, bebi dois copos de Château Petrus (um
dos vinhos mais caros e cobiçados do mundo, da região de Bordeaux, na França).
O que sente quando olha para trás e vê todos esses anos perdidos?
Vou contar uma história. No aniversário de 16 anos da Sofia Coppola, em 1987,
roubei um gloss da Chanel do quarto dela. Eu nunca tinha visto maquiagem da
Chanel. Anos depois deixei um gloss Chanel na portaria do Hotel Mercer para ela.
Sabe por quê? Porque acredito que temos que limpar o nosso carma. Por isso é tão
importante não ser a vítima. Eu me fiz vulnerável. Fui eu que tomei aquelas
drogas.
Você é mais feliz agora?
No momento não estou tomando antidepressivos. O produtor do meu álbum quer que
eu sinta a raiva, que eu fique realmente brava, que encare os demônios...
5.Dietas
Quando percebeu que precisava emagrecer?
Eu estava com 87 quilos e fotografando para a Vogue italiana! O problema é que
eu sempre me acho sexy, não importa quanto esteja pesando. Mas passei por uma
que foi um soco na cara. Tinha um vestido Chanel maravilhoso, de alta costura. Só
que ele não entrava em mim. O jeito foi a stylist da revista cortar as costas
do vestido para que ele pudesse me cobrir como uma toalha. Foi aí que decidi. A
foto sem retoque está até hoje presa na porta da minha geladeira.
Como ficou tão gorda?
Comendo comida macrobiótica! Não podia imaginar que fosse engordar já que era
uma alimentação saudável. A comida era gostosa, então comia muito. A Trudie
e o Sting comem a mesma coisa, mas malham três horas por dia.
Você colocou um anel gástrico, como dizem os jornais?
Olha, se eu pudesse colocar o anel eu colocaria! Me contaram que a gente vomita
muito e coisa e tal. Mas, mesmo assim, ainda é mais fácil do que fazer dieta.
Consultei um médico em Hollywood e ele disse que não podia me operar porque eu
não era gorda suficiente. Aí fiz lipo no estômago. Foi horrível e não
adiantou nada.
Que dieta você fez?
Shakes de proteína. Também fiz um pouco da dieta Atkins. Agora como
peixe branco. Faz bem para a pele. Perdi muitos hormônios por causa do estresse
e de todos aqueles narcóticos. Reponho com suplementos naturais.
Você está muito mais saudável agora do que no
começo do ano. Por que estava tão magra? Teve algum distúrbio alimentar?
Não tive anorexia, porque não sou suficientemente obsessiva e
compulsiva. Mas me acostumei a não comer. Era puro medo de ficar gorda.
Quando percebeu que estava emagrecendo demais?
Vi uma foto minha no New York Times e eu parecia um esqueleto. Estava
assustadora. Perdi os peitos, o bumbum. Fiquei flácida. Não fiz exercício
nenhum para perder peso, só parei de comer.
| A ótima forma de Courtney no ELLE Style
Awards, em fevereiro de 2009 Foto: Dave Hogan/ Getty Images |
Acima do peso em outubro de 2006
6.Moda
Courtney na temporada primavera/verão 2008: na primeira
fila de Marc Jacobs e chegando ao desfile da Chanel
Fotos: Peter Kramer/ Getty Images e François Durand
Você gosta mais de moda agora que está magra?
Sempre gostei de moda. E sempre segui. A moda é que nem sempre gostou de mim.
Comprei cinco vestidos Gucci dessa estação. Todos muito sexy. Fui a uma festa
com o azul de veludo e os homens não saíram de cima de mim! Uma loucura!
Seu estilo mudou?
Não, eu simplesmente parei de me preocupar em vestir a coisa certa. Em 2004,
nenhum designer me emprestava uma roupa para o Grammy. Então usei um vestido
vintage de 32 dólares só para provocar. Estava tão chateada porque minha
amiga Donatella Versace não me vestiria que telefonei chorando para o fotógrafo
David LaChapelle. Ele me perguntou: desde quando você liga para isso? Então,
pensei: é verdade. De agora em diante vou a uma loja vintage e crio meu próprio
estilo lá.
Você se importa com o que as pessoas pensam da sua maneira de vestir?
A imprensa inglesa sempre pega no meu pé. Uns meses atrás usei um vestido
Ossie Clark vintage, maravilhoso. Estava impecável, mas uma revista de
celebridades acabou comigo. Eu queria que as pessoas se arriscassem mais. Não
estou falando da Cher vestida de Estátua da Liberdade. Mas não aguento mais
ver todas as starlets de vestido-coluna. Preferia que elas errassem um pouco.”
Quem são seus designers favoritos?
Rick Owens, Riccardo Tisci, da Givenchy, Lanvin, Todd Lynn, Christopher
Bailey, da Burberry. Amo Vivienne Westwood. Ela é louca, mas eu sou mais. Fomos
apresentadas num evento de gala e eu disse: é um prazer enorme finalmente te
conhecer! Ela virou para mim e respondeu: ‘O que você quer dizer com isso? Nós
já almoçamos juntas uma vez. Você conversou comigo durante três horas!’
Moda faz você feliz?
No ano passado eu estava em Paris durante a semana de moda, hospedada numa suíte
no Ritz. Os designers me mandavam roupas de presente e eu estava lá, atirada no
chão, chorando, com os nervos em frangalhos. Sabe o que me fez feliz mesmo? O
desfile da Lanvin.
7.Homens
Você parece gostar de meninos ingleses...
Olha, eu juro que Russell Brand e eu somos apenas bons amigos. Eu não
quero fazer sexo com ele. Eu, na verdade, tenho uma vida sexual muito satisfatória,
muito obrigada.
Quem é o seu namorado?
Eu não estou vivendo um compromisso no momento e não diria que este
é o relacionamento mais apropriado, mas ele é um cara brilhante. Eu tenho uma
queda por ele desde os 15 anos de idade. Eu até saí com o irmão dele na
tentativa de chamar sua atenção.
Então, como você é vista com Russell Brand e Noel Fielding?
Eu os conheci através do comediante inglês Steve Coogan, com quem eu
saí desastrosamente.
Como assim?
A única coisa que não se faz é beijar e contar. Mas eu tenho visto 24 Hour
People e a minha teoria é de que a coisa toda aconteceu por conta de um tipo de
queda paternal por Tony Wilson (que, mais tarde, fundou a Factory Records, quem
Courtney conheceu enquanto morava em Liverpool durante o início dos anos 1980).
Eu transferi isso para o Coogan porque ele faz o papel de Tony Wilson.
Que tipo de homem te atrai?
Eu não estou procurando por ricos arrogantes. Mas eu intimido os homens
incrivelmente, particularmente quando eles me vêem no palco, onde existe muita
agressividade e raiva. Se eu não fosse capaz de transformar aquele veneno em
arte, estaria morta. Sou uma pessoa tóxica para se estar por perto se não
estou fazendo música.
Você quer se casar outra vez?
Sim, estou certa de que vou. Quando Kurt morreu, eu encontrei o número
do celular de John Galliano no bolso dele. Galliano e eu almoçamos juntos bem
depois e eu disse, “Se eu me casasse outra vez, você faria o meu vestido?”.
Ele respondeu: “Com certeza!”. Por isso, vou deixar esta tarefa para ele.
Courtney com Russell Brand
Foto: Dave Hogan/ Getty Images
8.Família
Como Frances lida com a morte do pai e com a infância
difícil?
Eu a cerquei de pessoas treinadas profissionalmente, pessoas que passaram pelo
alcoolismo e pela dependência de drogas e hoje são experts em comportamento
adolescente. Minha filha diz que eles são seus assistentes. Ela não me odeia
como as adolescentes odeiam as mães. Ela pode não achar que sou uma pessoa
legal, mas sabe que só temos uma a outra.
Você terá mais filhos?
Sim, definitivamente, eu quero. Mas só que preciso me apressar. Felizmente, eu
sempre fui muito fértil.
A Frances é o seu maior orgulho?
Sim. Ela é uma menina muito bem educada, muito bonita e, perdão por dizer
isso, mas muito bem criada. Ela não tem desejo algum de se tornar uma It girl.
Mas eu dei, sim, uma bolsa Birkin vermelha para ela no aniversário de 16 anos.
Courtney e sua filha Frances no Style
Awards de 2007
Foto: Charley Gallay/Getty Images
Entrevista
Original Publicada pelo site
Texto: Avril Mair